mente coletiva
outro dia tava eu pensando em fazer um caldo de galinha. osso de pescoço, dorso. e enquanto ficava ali eu comecei a pensar numa coisa meio maluca: e se a humanidade inteira fosse conectada numa mente só?
todo mundo sentindo o que todo mundo sente. todo mundo sabendo o que todo mundo sabe. parece bonito né. ninguém mais sozinho, ninguém mais incompreendido. o matadouro fecha porque agora você sente a dor do animal. a fome acaba porque a logística se resolve sozinha quando oito bilhões de cérebros trabalham juntos. parece o upgrade definitivo da espécie.
mas aí eu fui puxando mais o fio.
pensa no seu relacionamento, o que faz ele significar alguma coisa eh justamente o esforço. eh seu parceiro às duas da manhã tentando achar a palavra certa e errando. é aquele momento de vulnerabilidade quando alguem fala "não sei se você vai entender mas..." e aí a pessoa entende e aquilo eh mágico. na mente coletiva isso n existe. seu parceiro não escolhe te entender. ele simplesmente entende. automaticamente. e quando você tira a escolha você tira o significado inteiro. é tipo a diferença entre alguém te escrever uma carta à mão toda torta e um algoritmo gerar a resposta perfeita. a carta imperfeita é o amor. o algoritmo é só eficiência.
e eficiência é inimiga do significado.
vai mais fundo, pensa na política. democracia inteira é construída em cima de pessoas com conhecimento incompleto e experiências diferentes se juntando, discutindo, brigando, cedendo e chegando em algo imperfeito mas que todo mundo ajudou a construir. na mente coletiva pra que representante? pra que debate? a resposta ótima simplesmente aparece. e talvez seja até uma resposta melhor objetivamente. mas ninguém lutou por ela. ninguém sacrificou nada. ninguém cedeu. entao ninguém valoriza.
eh como a diferença entre construir sua casa com as próprias mãos e ganhar uma de presente. vc cuida da que vc construiu.
e o conhecimento? hoje em dia a luta de aprender algo te transforma. um estudante de medicina não só memoriza coisa por oito anos. ele vira outra pessoa no processo. o esforço é o ponto. se você pode só acessar o conhecimento de qualquer pessoa instantaneamente você pega a informação mas perde o crescimento. vira uma biblioteca ambulante em vez de uma pessoa.
o mais bizarro é que isso não vai acontecer de propósito. ninguém vai sentar e planejar uma mente coletiva. vai acontecer do mesmo jeito que aconteceu com o celular. ngm te obrigou a ter um. mas tenta viver sem. tenta arrumar emprego, se localizar numa cidade, manter contato com as pessoas. a "escolha" tecnicamente existe mas na prática não.
com interface cerebral vai ser igual. começa com medicina. um cara trancado no próprio corpo finalmente consegue se comunicar através de um implante. isso é lindo, ninguém discorda. depois vem conveniência. pra que fazer se a inteligência artificial faz pra você? pra que digitar se vc pode pensar? pra que falar se vc pode transmitir exatamente o que sente? cada passo faz sentido sozinho. cada passo é voluntário. e cada passo te puxa mais pra dentro.
uma decisão razoável por vez. cada geração achando os limites da anterior antiquados. ate que sair fora pareça sair fora de ser humano.
e é aí que tá a ironia mais cruel. porque a coisa que realmente nos faz humanos é o atrito. é não saber. é a discussão no jantar antes de alguém poder pesquisar no google. é tentar explicar o que você sente e não conseguir e tentar de novo. é o espaço entre uma pessoa e outra.
a gente sempre achou que esse espaço era o problema. que se fechasse todas as lacunas, respondesse todas as perguntas, sentisse tudo antes de precisar ser dito, aí sim estaria completo.
mas o espaço era onde a gente guardava tudo que importava.
a tentativa de alcançar o outro, essa coisa teimosa, linda e completamente desnecessária, talvez seja a única coisa realmente sagrada que a gente tem.
e a gente tá abrindo mão dela aos poucos sem nem perceber.
feito em parceria com quem não sente nada disso.
gostou? assista: https://www.imdb.com/title/tt22202452/